Joelma, a lua também me traiu e foi com esse carcará em Alto Paraíso

Carcará, o falcão brasileiro.
(c) Paulo Rebêlo

Estávamos admirando a lua no céu azul e só depois percebemos: não éramos os únicos em admiração.

Esse é o carcará do cerrado (caracara plancus), o nosso falcão brasileiro. Também tem outros nomes, a depender da região do Brasil: carancho, caracaraí (Ilha do Marajó), gavião-de-queimada, gavião-calçudo, falcão-gigante e caracaí. Esse tipo com bico laranja é bem típico do cerrado, tem uma foto colorida no final deste texto e também a série completa no Flickr.

Eu já tinha visto um carcará outras vezes, durante minhas andanças pelo Distrito Federal e por Goiás, mas sempre de longe e sem chance de registrar com a câmera. Em abril de 2026, porém, pela primeira vez consegui ver um carcará tão de perto e fazer um registro de (discutível) qualidade.

Não me empolguei, pois na hora tive certeza que ele ia sair voando assim que eu pegasse a câmera e tentasse me aproximar. Mas, se a lua traiu até a Joelma, parece que estava pronta para me trair também: o carcará parecia fascinado por ela.

Ele percebeu minha movimentação, claro, ainda vi (pela lente) seus olhos brilhando em minha direção, mas ele manteve-se quieto e fixado na lua, enquanto eu tentava fazer o menor ruído possível na aproximação.

Ergui a câmera bem devagar, deu trabalho conseguir focar (sem tremer) a teleobjetiva da minha Fujizinha. Foi um registro de muita sorte e não deve ter levado mais de um minuto a operação toda, entre sair do carro, pegar a Fuji e arriscar alguns passos vagarosos para chegar mais perto da árvore. E com o cuidado de não pisar em galho seco ou nada que fizesse barulho. Foram ações provavelmente inúteis, admito, pois o carcará já havia nos percebido ali desde o momento em que encostamos o carro. A decisão seria dele.

Consegui fazer umas imagens bacanas, mas ainda bem distante do que poderia ser feito se o carcará tivesse me concedido trinta segundos a mais. Eu já tinha conseguido alguns cliques e resolvi abusar da sorte: queria me aproximar ainda mais, entrar no mato e tentar ficar pertinho da árvore. Claro que não deu certo, ele se despediu da lua e saiu voando assim que eu dei o primeiro passo em direção ao mato.

A distância focal que usei foi 100-150mm nas imagens mais distantes e 300-350mm nas mais próximas. Quando há luz natural em abundância, como foi o caso desse dia, gosto de acoplar um teleconversor (teleconverter) de 1.4x na lente 70-300mm e isso permite chegar a 400mm, mas é muito difícil não tremer a 400mm. Os parâmetros ópticos também mudam com o teleconversor. Além de haver um certo desequilíbrio entre foco e qualidade de imagem, a relação entre velocidade, ISO e diafragma também precisa ser repensada e já aconteceu de eu perder excelentes registros por causa disso.

Carcarás são inquietos e minha óbvia aproximação ia afastá-lo da árvore a qualquer momento. É fácil fazer silêncio e não gerar ruído quando você já está em posição “de ataque” e com a câmera pronta, mas é quase impossível fazer isso na hora, tendo que ajustar lente, fazer leitura de luz e se posicionar, tudo em tempo real.

Dias depois desse registro, encontramos um tucano enorme, lindo, maravilhoso com aquele bico colorido. Na verdade, ele que encontrou a gente, pois pousou numa árvore bem ao nosso lado, a pouquíssimos metros de distância, bem mais perto do que o carcará. Desliguei o carro imediatamente e sabia que qualquer movimento ia espantar o tucano. A gente ainda se entreolhou por uns dez segundos, ele imóvel e eu também. Busquei a câmera bem devagar, enquanto o tucano olhava fixamente em nossa direção.

Foi batata, quando ergui a lente para fazer o registro, mesmo bem devagar, o tucano saiu voando e desapareceu. Não teve foto, mas fiquei feliz por ter visto um tucano tão de perto e solto na natureza, sem ser em zoológico ou gaiola. Aquele longo bico colorido é realmente do outro mundo.

Nos dois casos, do carcará e do tucano, estávamos retornando da Cachoeira dos Couros, em meio a um trecho bem longo (30 km) de estrada de barro com pouquíssimo a quase nenhum movimento de veículos durante a semana. Essa região faz parte do município de Alto Paraíso do Goiás e já é considerada parte integrante da Chapada dos Veadeiros. Toda essa região é um grande zoológico a céu aberto, mas precisa ter sangue frio. A sinalização é péssima e algumas trilhas são pesadas. E se você estiver a pé, em algumas trilhas e cachoeiras sempre há um risco real de encontrar uma onça. De verdade.

As onças costumam circular à noite, quando não há movimento de pessoas, mas ocasionalmente elas surgem durante o dia. Em maio de 2026, apenas um mês depois desse encontro com o carcará, uma onça-parda apareceu no meio de uma das trilhas mais famosas na chapada, a Cachoeira do Cordovil, e atacou uma criança de oito anos que estava acompanhada da família. A criança não morreu, mas a coisa toda foi bem feia e ela precisou fazer cirurgias plásticas no rosto após ter se estabilizado.

Carcará no Cerrado. Foto: Paulo Rebêlo Carcará no Cerrado. Foto: Paulo Rebêlo Carcará no Cerrado. Foto: Paulo Rebêlo Carcará no Cerrado. Foto: Paulo Rebêlo

Carcará no Cerrado // Foto: Paulo Rebêlo

Categories: Fotomemórias

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