A gente costuma dizer que ninguém deve ter raiva de quem morreu. Eu tenho. Quando vejo amigos queridos desesperados, sem saber o que fazer e sendo cutilados financeiramente por funerárias, advogados, empresas fantasmas e golpes de todo tipo, tenho muita raiva. E anoto o nome de todos esses defuntos para que eu mesmo vá entregar uma carta de despejo quando for minha vez de chegar onde eles estão, seja lá onde for.
A idade me trouxe um pouco de parcimônia para me controlar e não quebrar na porrada todos os dentes dos jovens que voltam do exterior espantados que lá fora ninguém fala “ecs burguer” e que só no Brasil se usa o termo x-burguer no sanduíche.
Quando Dona Morte me fizer uma visita, ela vai sentar no meu sofá, tomar minha cerveja, comer meu miojo, abrir minhas latas de sardinha, jogar meu Playstation e ignorar meu tabuleiro de xadrez.
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