Cascavilhei o meu cabeção em busca da primeira memória da minha vida. Tento abrir meus diretórios mentais à procura do que passei a admitir como a memória zero: uma lembrança imagética, consistente e contextualizada que defina a nossa existência cognitiva. Minha memória zero só aparece aos três ou quatro anos de idade e se resume a um bolovo.
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Quero escrever para mim, mas escrevo para os outros
São 25 anos de texto e conteúdo para jornal, revista, sites e empresas. E até bilhetes de amor. Troquei muito bilhete por uma cerveja e lamento não terem sido meus os bilhetes. Queria escrever meus próprios bilhetes.
O craque do creme
Minha avó recheava a mesa de cimento com comida caseira, ele pegava uma coisa ou outra, mas era uma prévia do grande momento: a bolacha creme craque.
A arrogância é só uma paixão
Sem palavras, talvez um pouco bêbado, quando uma mulher é interessante demais a ponto de a gente não saber o que falar. Ou a ponto de ficarmos a procura de qualquer coisa banal para perguntar, com medo que ela perceba que não somos tão interessantes o quanto elas são – ou o quanto elas pensam que somos.
Budapeste, oito anos
O vovô boxeador que jogava pôquer bateu as botas. Eu já devia ter desconfiado, talvez por causa da demora em responder aos e-mails sobre minha provável visita para mais um churrasco de salsicha. Éramos apenas quatro, às vezes cinco. E ele sempre contava como aprendeu a jogar durante a Guerra da Coréia nos anos 50.
Os filmes que ela não viu
Deixei de assistir excelentes filmes, sobretudo os clássicos, porque guardava para assistir com ela. Antes, não sobrava tempo. Depois, não sobrou ela.
O homem backup
Paulo Rebêlo Terra Magazine 03.agosto.2011 A gente nunca admite por vergonha, mas estamos quase sempre procurando – ou esperando – alguém para substituir algo que perdemos. Os amigos são os mesmos. Família, trabalho e problemas, também. Arquivos do acaso, alguém puxa o mesmo livro que o seu na prateleira da livraria e, sem ninguém lembrar… Continue reading
O homem elefante
Paulo Rebêlo 23.novembro.2010 Terra Magazine Invejo as pessoas de memória fraca. E desconfio que elas sejam mais felizes. Antigamente, minha memória avantajada era motivo de orgulho. Hoje é um pouco maldição. Pode ter sido alguma pancada na cabeça. Antes dos três anos de idade, não lembro de absolutamente nada. Parece-me normal. O que me parece pouco normal… Continue reading
Despedidas de um homem casado
Terra Magazine – abril.2010 Não parece, mas toda mudança me parte o coração. Seja de bairro, cidade ou país. Seja em lugares onde morei cinco anos, cinco meses ou até mesmo cinco semanas, como já aconteceu certa vez. Do dia em que cortaram meu umbigo gordo até hoje, são 14 mudanças de CEP. Com exceção… Continue reading
Uma noite no supermercado
A primeira vez que entrei em um supermercado, sem precisar dar satisfação a ninguém, foi quase como ver aberta as portas do paraíso. Naquele instante, nem o céu islâmico com 76 virgens me pareceu tão interessante quanto aquele carrinho de compras e meu talão de cheques novinho, zero bala. Se naquela época achar uma virgem… Continue reading