Paulo Rebêlo | 2.março.2026
25 anos atrás, cheguei em casa meio triste e encontrei um pombo perdido na sala. Pensei que fosse alucinação, mas o pombo voltou nos dias seguintes. Eram tempos muito loucos aquele começo de novo milênio em 2001. Pois agora, 25 anos depois, cheguei em casa meio triste e encontrei uma calopsita perdida na varanda.
Queria que ela voasse para longe, fosse embora por conta própria, me deixasse escrever em paz no escuro do terraço. Dos 100 apartamentos aqui do prédio, ela foi escolher o pior possível. Onde não tem sequer um pedaço de fruta. Aliás, onde na maior parte do tempo não tem sequer a minha pessoa por aqui.
Em 2001, celular não tirava foto e minha câmera fotográfica ainda era analógica. Eu contava as moedas para comprar e revelar filme fotográfico. Não dei importância em fazer o registro, afinal, era um pombo igual a todos os outros pombos. Claro que me arrependi depois.
Agora em 2026, de novo achei que fosse alucinação. Passava das 23h e comecei a me sentir observado enquanto escrevia. Olhei de butuca por cima da tela do computador e vi uma estátua de passarinho pendurada no parapeito da varanda. Devia ser do vizinho.
Até que a estátua se mexeu e eu pulei da cadeira, achando que era assombração. Então era um bicho vivo mesmo. Dei água, na esperança que o bicho voasse. Não quis água e não quis voar. Ficou ali, urubuservando minhas datilografias no escuro.
Avisei ao síndico, avisaram no grupo do condomínio. Supliquei que viessem buscar o bicho perdido. Ninguém respondeu, ninguém apareceu.
Em 2001, acho que o pombo queria ser adotado, mas desistiu depois de algumas visitas. Ele ficava perambulando pela sala e fazendo glu-glu, enquanto eu ficava deitado na rede lendo minhas inutilidades e escrevendo minhas crônicas ranzinzas.
Em 2026, acho que a calopsita também queria ser adotada. Ela olhava para o além, como se quisesse voar. Depois olhava para dentro de casa, como se quisesse ficar. Acho que me identifiquei com a indecisão e deixei ela por ali sem aperreios. Horas depois, o vizinho interfona para perguntar se vou querer ficar com a calopsita, porque se eu não quiser, ele quer.
Em 2001, não adotei o pombo porque ele morreria de fome, diante das minhas longas ausências de casa. Em 2026, não adotei a calopsita pelo mesmo motivo. Tanta coisa aconteceu em 25 anos, mas aparentemente ainda preciso voar para pagar as contas quando até os bichos que voam querem descansar as asas em segurança. Bizarro.
Daqui a 25 anos, acho que minhas asas já estarão cortadas. Mas, se por um atraso no percurso do xeque-mate eu ainda esteja por aqui, espero ter cansado disso tudo e talvez encontre um urubu me esperando. Deixarei ele me adotar.
Nunca vou entender a confiança que os bichos têm na gente. Porque para onde eu olho, vejo que nem a gente confia nas outras gentes.
